A boga-de-boca-arqueada de Lisboa

Figure1
Foto de Hugo Gante.

 

A boga-de-boca-arqueada de Lisboa (ou boga de Lisboa), cujo nome científico é Iberochondrostoma olisiponensis, foi descoberta em 2006 em dois pequenos rios tributários do Baixo Tejo. Oficialmente descrita em 2007, a boga de Lisboa pode identificar-se com base num conjunto de características, nomeadamente:

  • boca terminal, i.e. orientada para a frente;
  • sem barbilhos;
  • focinho mais curto que o diâmetro do olho;
  • barbatanas pélvicas longas, atingindo o ânus no caso da fêmeas, ou podendo ultrapassar a origem da barbatana anal no caso dos machos;
  • escamas grandes e menos numerosas que outras espécies de bogas-de-boca-arqueada do género Iberochondrostoma;
  • inserção das barbatanas pares (peitorais e pélvicas) e barbatana anal sem coloração laranja/vermelha característica das espécies de bogas-de-boca-arqueada do género Achondrostoma.

Apesar da sua descoberta recente, a espécie revelou-se como uma das mais antigas do seu género, com uma idade aproximada de cerca de 10 milhões de anos.

A boga de Lisboa ocorre em regiões inundáveis, como pauis e várzeas, assim como valas de irrigação e leitos de rios naturais. Uma primeira prospecção no terreno indicou que a área de distribuição da boga de Lisboa está limitada a apenas três rios afluentes do Baixo Tejo, nomeadamente os rios Trancão, Maior and Muge. Foi também verificado que as poucas populações detectadas têm densidades reduzidas e estão geograficamente isoladas umas das outras.

A fragmentação atual das populações da boga de Lisboa levanta preocupações do ponto de vista da conservação. Por exemplo, caso uma das populações da espécie venha a sofrer perdas acentuadas do seu efetivo populacional, é pouco provável que ela possa receber reforços de outras populações em tempo útil e de modo a evitar a extinção local dessa mesma população. Tal ter-se-á verificado em locais onde há registos históricos da espécie e onde não foi possível recapturar a espécie actualmente. Esta situação poderá ocorrer num futuro próximo com as populações remanescentes da boga de Lisboa, já que trabalhos de monitorização realizados nos últimos anos indicam que a abundância de indivíduos na Bacia do Rio Trancão tem vindo a diminuir de forma acentuada (Gante & Santos, dados não publicados).

Uma outra ameaça à integridade da boga de Lisboa foi detectada em 2010, altura em que foram identificados indivíduos híbridos no rio Maior. Mais híbridos foram encontrados posteriormente no Rio Trancão. Os híbridos possuem parte do seu material genético proveniente da boga de Lisboa e outra parte de uma espécie próxima, a boga Portuguesa ou Iberochondrostoma lusitanicum, que partilha a mesma área de distribuição. A razão da ocorrência de hibridação entre estas duas espécies não é ainda conhecida mas poderá dever-se a uma baixa densidade das populações da boga de Lisboa comparativamente a uma maior abundância de boga Portuguesa, aumentando a probabilidade de cruzamento entre uma espécie rara e outra mais numerosa. Esta situação é preocupante caso a frequência de hibridação se mantenha ou aumente, dado que poderá levar à “diluição” da identidade genética da boga de Lisboa e ao seu eventual desaparecimento enquanto espécie.

Mas existem outras ameaças potenciais à sobrevivência da boga de Lisboa a curto e médio prazo que estão associadas à pressão humana. As regiões de ocorrência da espécie correspondem a áreas onde se pratica uma agricultura intensiva, e onde a pressão do desenvolvimento humano se tem vindo a fazer de forma contínua (i.e. instalação de zonas industriais e urbanas). A pressão humana levou ao aumento dos níveis de poluição das águas assim como à introdução de espécies não-nativas, ou à modificação do uso das terras. Como resultado, as condições ambientais naturais em que a espécie evoluiu poderão ter-se alterado progressivamente nas últimas décadas. Estas alterações do habitat da boga de Lisboa parecem ser especialmente problemáticas em anos de seca, durante os quais se regista uma degradação acentuada da qualidade e quantidade do habitat disponível.

A reduzida área de distribuição da boga de Lisboa, o isolamento geográfico entre as poucas populações atualmente conhecidas, assim como as várias ameaças potenciais à viabilidade da espécie associadas a uma elevada pressão humana sobre o seu habitat, levou a que a boga de Lisboa fosse reconhecida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como estando Criticamente Ameaçada B1ab(i,ii,iii,iv,v) + 2ab(i,ii,iii,iv,v). Fica assim clara a necessidade de desenvolver medidas urgentes para a sua conservação.

Email para contacto: iberochondrostomaolisiponensis@gmail.com

 

última atualização: 26 janeiro 2016

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s